2.5.06

Paulo Nejain e suas Agruras

No último domingo, dia 30/04, o Bonsucesso Futebol Clube, tradicional agremiação do Alto José do Pinho, comemorou 57 anos de fundação. Freqüentador assíduo do recinto, Paulo Nejain chega na sexta que antecede o evento me convidando para as para as solenidades comemorativas.

Lendo o convite me entusiasmei quando vi que as atrações da noite seriam a Orquestra 2001 e a Banda Seguimentos da Paixão, e que os trajes sugeridos eram: Passeio Formal ou Esportivo Fino.

De pronto afirmei:

“Paulo, o traje é Passeio Formal. Tu vai ter que usar terno”.

“Brunão, e isso aí do lado é o quê?”.

“Esportivo Fino”.

“Então, Esportivo Fino é do jeito que a gente tá vestido agora. Tem frescura não...”.

24.4.06

A Jovem Guarda está de volta! Um brinde à nossa velhice!

“Xanduzinha, que vergonha, espezinharam na fulô. E chegou um chamego chamado pop. Ah, puta que pariu (...)” Tom Zé.
Eis que surge mais uma velha novidade no dito território mais profícuo em termos de produção cultural do país. Este lugar tão abençoado e banhado de sol chamado Pernambuco. A revelação me veio no último dia do Abril Pro Rock deste ano. Uma recepção digna da velha hospitalidade pernambucana. Com ingressos a 20 reais (meia-entrada), cerveja Nova Schin por R$ 2,50 , e – imaginem quanto altruísmo – Campari de graça pra macacada.

Com tanta bebida ruim e o bolso chorando os arremedos, nos restava enfim, curtir as novidades do que se têm produzido atualmente na música alternativa. Algo que nós, originais qual Rolex na Praça do Diário, temos copiado com uma verossimilhança abasbacada. Os hits são os mesmos da época dos nossos pais, o que confirma a velha máxima do poeta cearense quando diz que ainda vivemos como eles. Trata-se daquele movimento de letras fáceis e ritmo frenético que tomou conta do Brasil nas décadas de 60 e 70, e que foi responsável por boa parte da construção da nossa árvore genealógica: a Jovem Guarda.

Os Reis Roberto Carlos, Reginaldo Rossi, e seus súditos Ronnie Von, Wanderléa e Cia. estão de volta, criaram aura cult. A mesma juventude dita questionadora que já presenciou no mesmo evento as rajadas da metralhadora de Chico Science, hoje se contenta em vestir uma saia de bolinhas e delirar com bandas como Lafayette e os Tremendões entoando som de velhas e desgastadas canções como Splish Splash e Garota Papo Firme. É a mansa e niilista rapaziada que acha que o desprendimento de qualquer tipo de rótulo é a solução para a liberdade de suas almas. Que deixou definitivamente a calça desbotada no armário.

Nossas cópias da rentável fórmula estão aí, fazendo um tremendo sucesso na terra do mestre Sivuca. São bandas como a Del Rey que reciclam o óbvio de olho num cachêzinho mais gordo e que acabam esquecendo que a história da nossa música continua, não faz parte do nosso passado e sim do futuro. E o futuro anda sempre na nossa frente.

Em todo caso, é melhor se contentar com o stablishment da “Cena” sob a pena de parecer careta ou coisa parecida. Fiquemos então em cima do muro, como a nossa mídia que em momento nenhum criticou de maneira contundente os preços absurdos cobrados na bilheteria do referido evento que contou, inclusive, com dinheiro público no seu patrocínio. Sejamos, com diz a boa regra, imparciais. Mesmo sabendo que Deus – para quem acredita nele – vomitará os mornos. Nada mais apropriado em ano de Copa do Mundo e Eleição Presidencial. Sendo assim, um brinde de Campari ao Abril Pro Rock e à Cena Pernambucana. Como diziam nossos pais: É uma brasa, mora?


18.4.06

Coisas de uma Semana Santa no interior

“Fraqueza da humanidade/Alguém dirá mais não é/ Diz a tradição que até/ Jesus chorou de saudade/ Seu coração de bondade/ Da Virgem se despedia/ Chorava olhando Maria/ Na sombra de uma oliveira/ A saudade é companheira/ De quem não tem companhia”. Dimas Batista

Chegamos em Monteiro, no Sertão Paraíba, após uma cansativa viagem de quase cinco horas. No possante de Pedrão estávamos eu, o dono do carro e meus companheiros de gafieira André e Gustavo. Na entrada da cidade logo avistamos um imenso palco a céu aberto, “mais algumas dessas bandas de forró de plástico”, imaginei. Mas qual foi não a minha surpresa quando percebi que no palco o que se realizava era uma encenação da Paixão de Cristo acompanhada atentamente por milhares de pessoas em plena praça pública. Havia chegado finalmente naquele interior que guarda grande parte das minhas alegrias.

Depois da magra mas contagiante apresentação, nos dirigimos ao bar do lado para a melhor parte da festa: a profana. Copo sujo, cerveja Nova Schin, uma delícia. Do nada aparece um simpático senhor e puxa assunto. Apresenta-se sob as alcunhas de Tio Sam, Gaúcho, Paraíba e Reginaldo da Rua da Cadeia. “Os nomes mudam de acordo com o referencial. O último é porque eu me chamo justamente Reginaldo e moro justamente na rua da cadeia”, disse.

Finalizamos o bate papo e nos dirigimos à fazenda Boa Vista, casa do nosso querido Tio Zé, onde ficaríamos hospedados. Joselito junto com meus tios e primos já estavam naquele saudoso terraço jogando conversa fora. Aquelas conversas geniais que entram pela madrugada no frio regulado pelo gole de uísque, onde mesmo os cururus e os besouros, inimigos imparciais, param para escutar alguma coisa.

Entre uma história e outra surgiu a conversa de uma figura folclórica daquela região chamada João Badalo. Disseram que um dia João estava Sumé quando encontrou o então governador da Paraíba e boêmio inveterado Ronaldo Cunha Lima. Ao atentar para a ilustre presença João não perdeu tempo e foi logo abraçar o político.

“Meu governador!!!”

O simpático político respondeu com entusiasmo:

“Meu amigo!!”

“Mas governador, me diga! De onde é que você me conhece?”.

“De um bar!”.

Respondeu Ronaldo.

Badalo então se virou para os amigos com um sorriso enorme no rosto e disse:

“Eu não disse que ele me conhecia!?”.

No dia seguinte tivemos a notícia de que ali bem pertinho de nós, na cidade de Ouro Velho, também haveria uma encenação da Paixão de Cristo. Fiquei deveras impressionado quando vi que a prefeitura não medira esforços para realizar um grande espetáculo. A exemplo da famosa encenação que se dá em Nova Jerusalém, cuidaram de trazer um ator global para interpretar o papel de Cristo. No caso, Cabeção da novela Malhação. Imaginem só, nobres leitores, quanta semelhança pode haver entre Cabeção da Malhação e o nosso estimado JC. Eu, que não entendo nada de teatro e que cresci vendo Zé Pimentel interpretando o papel do divino, prefiro não me pronunciar.

Soube que Cabeção fez lá suas exigências e extravagâncias. Pediu 8 travesseiros, 12 toalhas brancas, subiu bêbado no palco, deu em cima da mulher do prefeito, e voltou pra casa achando tudo lindo. O prefeito, aliás, também participou da encenação. Fez o papel de Pilatos. Lavou as mãos e mandou Cabeção pra cruz. Coisas do interior...

7.4.06

Paulo Nejain e suas Agruras

Tenho recebido ultimamente dos colegas aqui do trabalho uma considerável quantidade de situações envolvendo nosso querido Paulo Nejain. Algo que, em mantendo a regularidade de colaborações, pode futuramente, quem sabe, apresentar material necessário para a composição de um livro sobre as peripércias do nobre amigo.

Érika me enviou esta pérola:

Paulo é o cidadão responsável pela compra de quase tudo aqui no trabalho. No café da manhã de hoje nosso amigo ouvia reclamações de todos os lados. Reclamavam do pão, da manteiga, do copo descartável, do café, da vida enfim. Após ter ouvido com paciência de monge budista as reclamações de todos, Paulo saiu com essa:

“Vejam bem! Podem falar o que quiser que minha cabeça é que nem caixa de sugestão, entra crítica, entra sugestão e eu não resolvo porra nehuma...”

28.3.06

O dia que Zelito Nunes se suicidou, mas não morreu

Passava de uma hora da tarde do último domingo quando Neurides, uma das donas do Box Sertanejo do Mercado da Madalena, recebe a notícia de que um amigo de Serra Talhada chamado Zezito Nunes havia se suicidado. Prontamente, ela chama a sua sobrinha de 13 anos, Mariana, e comunica-lhe o ocorrido, pedindo-lhe que em seguida ligue para o seu pai em São José do Egito para transmitir-lhe a triste notícia.

Na velocidade de Herodes para Pilatos, Mariana liga para o seu pai, Rona, vereador em São José, e comunica-lhe a desgraça:

“Pai, tu não sabe quem se suicidou?”.

“Quem, minha filha?”.

“Zelito Nunes”.

Joselito Nunes é um escritor admirado e muito popular em São José do Egito, que vem a ser, também, meu pai. Ao receber a notícia, Rona cai em prantos e, inconformado, transmite a notícia para os amigos que estavam em sua companhia no bar de Tcheco:

“Zelito morreu! Cometeu suicídio”.

O choque toma conta da mesa do bar onde todos os bebinhos eram companheiros inveterados de farras de Zelito. A comoção é geral e começam as ligações para os outros chegados:

“Saulo, uma desgraça. Zelito suicidou-se”.

“Zelito, Ronaldo, tu não sabe!? Foi-se!”.

O boato vai tomando corpo até que toda São José do Egito já estava ciente do acontecimento. As ligações não param e em pouco tempo uma parte de nossa família que reside nos municípios vizinhos e até em São Paulo já estava sendo comunicada.

“Alba, tenho uma notícia horrível pra lhe contar... Zelito se suicidou!”.

O boato só começou a malograr quando Saulo ligou pra João Veiga, amigo de Zelito aqui de Recife:

“João, que desgraça, hein?”.

“O que foi que houve, Saulo?”.

“Ôxe, tais sabendo não? Zelito, rapaz, cometeu suicídio”.

“Apôis só se foi há quinze minutos, pois eu acabei de almoçar com ele”.

Ainda incrédulo, Saulo liga para o próprio Zelito que atende com entusiasmo:

“Diga meu amigo Saulo!”.

Do outro lado Saulo se mantém calado, em estado de choque, pois nunca tinha falado com um defunto antes.

“Saulo, tais aí?”.

Pergunta Zelito.

“Ei, Zelito, tu não morresse não?”.

“Ôxe, tais doido, rapaz? Tô aqui, vivinho da silva...”.

“Apôis tá correndo um boato aqui em São Zé que tu tinha se suicidado”.

“Saulo, eu ando meio triste ultimamente, mas não tô pensando nisso ainda não. Quem morreu foi Zezito Nunes, lá de Serra”.

Saulo desliga o telefone e se vira para Rona:

“Rona, Zelito tá vivo, bicho! Quem morreu foi Zezito Nunes, lá de Serra Talhada”.

E Rona, ainda com cara de bacurau, fala num misto de alívio e raiva:

“Apôis quando eu chegar em Recife eu vou dar uma pisa boa em dona Mariana”.

E foi assim, por causa de uma simples consoante, que Zelito Nunes cometeu suicídio e Mariana espera uma pisa das boas.

22.3.06

Paulo Nejain e suas Agruras

Convido o nobre amigo pra tomar um sorvete e no caminho Paulo começa a tergiversar sobre assuntos femininos.

“Rapaz, o que eu gosto muito é a nêga com marca de biquíni daqueles ‘Ausa Deta’. Não. Como é??? ‘Ausa’... Como é, como é, Bruno, aquele bicho que voa?”.

“Asa Delta, Paulo”.

Voltando pro trabalho, no elevador, Paulo pergunta ao ascensorista:

“Ei, boy, já visse cocô de urso”.

“Não”.

“Chega mais cedo em casa que tu vê”.

21.3.06

A Verdade sobre o Caso Herzog

Passados pouco mais de 30 anos da morte do jornalista Vladimir Herzog, finalmente surge um documentário que mostra, com serenidade e didatismo, o caso que chocou a sociedade brasileira e escancarou as entranhas da tortura nos porões da nefasta Ditadura Militar que por tantos anos manchou as páginas da história deste país.

Falo do filme Vlado 30 Anos Depois, de João Batista de Andrade. Documentário que restaura, a partir de depoimentos de amigos, parentes e colegas de profissão do jornalista – entre eles Alberto Dines, Paulo Markun e Fernando Morais –, a prisão e assassinato de Herzog na sede do DOI – CODI, e a estapafúrdia alegação de suicídio sustentada pelos militares na época.

Em outubro de 1975, o General Ernesto Geisel completava a série de equívocos da Era dos Militares e Herzog era editor chefe da TV Cultura. Não era ligado a nenhum grupo armado e tinha endereço e emprego fixo (numa rede de televisão estatal). Seu maior pecado foi ter colocado no ar matérias que, ao contrário do colorido Global, mostravam a triste realidade do Brasil da época. Por tal motivo, assim como vários de seus colegas de profissão, foi chamado pelo Comando do 2º Exército para um depoimento na sede do DOI – CODI. Dirigiu-se ao local por conta própria, e, ao contrário de um depoimento, o que veio a se seguir foi uma série violenta de tortura à qual Herzog não resistiu vindo a falecer em seguida.

A ridícula tese de suicídio foi sustentada pelos militares com fotos que qualquer cidadão com o mínimo de Q.I e vista relativamente boa teria a prova da mentira absurda. Tese que foi derrubada pela Justiça iniciando um processo de derrocada da Ditadura Militar no Brasil. Ao contrário do que aconteceu com outros milhares mortos e desaparecidos na ditadura, a morte de Vladimir Herzog serviu como mola propulsora para o fim da da Era do Militares, que efetivamente só veio a terminar em 1984.

Uma passagem curiosa no documentário é quando o diretor entrevista pessoas nas ruas de São Paulo que atestam, em sua maioria, desconhecimento total sobre o Caso Herzog, desconhecimento semelhante quando o assunto são os Anos de Chumbo. Quando questionado sobre os acontecimentos da época, um senhor engravatado que passa na rua alega desconhecimento pelo fato de: “não ter vivido aqueles anos”. Em contrapartida, sentencia categoricamente sobre a fase mais obscura e vergonhosa da história deste país:

“Acho que deveria voltar”.